Por que ainda esperamos ser escolhidas?

Outro dia, no meu momento de maior autocuidado semanal, a terapia, me dei conta que a minha vida toda, eu esperei. Esperei ser escolhida por um sapo que passará por príncipe por alguns meses até me convencer de que as migalhas que me oferece é tudo que eu mereço. E eu sei, não sou a única que passa ou passou por isso em vários relacionamentos na vida.


Tal e qual os contos de fadas, que repetidas vezes nos mostraram como devíamos nos comportar, primeiro aceitando as mazelas da vida, sendo humilhada onde deveríamos ser cuidadas, como a Cinderela, esperando que uma mágica nos faça maravilhosas pra que o príncipe nos note e escolha. Depois, como a Branca de Neve, aprendemos que por causa da inveja de outra (olha de onde vem a competição entre mulheres, aí gente!) devemos servir a sete homens que sustentam a casa por gratidão. De brinde, também normatizamos que homens nos toquem, mesmo sem consentimento, mesmo em estado inconsciente, porque isso vai nos salvar. Pra coroar as lições que nos foram passadas, temos a Bela Adormecida e a Rapunzel, esperando pelos homens, machos, héteros, tops que vão salvá-las de qualquer bruxa má, dragão ou feitiço.


Já falei sobre isso em outra coluna, eu só queria mesmo, nesse mundo, era poder ser gente. Mas eu, assim como a maioria da minha geração e das gerações anteriores, fui criada para ser a Gata Borralheira. Submissa, aceitando humilhação como amor, esperando pelo milagre dos contos de fada, até ser nota e escolhida pelo príncipe disputados por todas.


Esperamos, ansiamos, aceitamos pouco, porque finalmente alguém nos escolheu. Só que ninguém nos contou qual a receita do viveram felizes para sempre, com a rotina, os filhos que chegam (e que muitas vezes não temos o direito de não ter), os boletos sem fim, a falta de olhar pra si, a sociedade que aceita a ausência paterna, mesmo dentro de um casamento, que normatiza o comportamento machista de não respeitar os acordos estabelecidos de fidelidade. Sem nem ao menos temos o direito sobre nossos corpos e o prazer que podemos ter.


Viveram felizes para sempre, eles dizem. Mas o pra sempre, já dizia Renato Russo, sempre acaba. Talvez, certo mesmo estivesse Vinícius de Morares, que seja eterno enquanto dure. Tudo acaba. A vida, o mundo, o Universo, são feitos de ciclos. Só que na lógica ensinada a nós mulheres, os relacionamentos são eternos e na sociedade que acreditou que Eva mordeu um fruto, desobedecendo as regras (veja bem se isso lá é coisa de uma mulher doce e fértil como pintaram a inventada da costela de Adão), condenando a humanidade a viver na merda, a culpa sempre é da mulher.


E quando nos rebelemos, somos loucas, difíceis, putas, vadias, as quais não merecem nem ao menos ser estupradas, como dito pelo maior verme que esse país já conheceu, ou que só devem ser olhadas como objetos. Quando decidimos escolher, depois de um processo doloroso de desconstrução, de remexer em feridas do passado, quebrar paradigmas, descrer daquilo que nos foi repetido tantas vezes sobre o nosso papel, ainda assim, por vezes julgamos a nós mesmas, sem saber se estamos idealizando um relacionamento e nos tornando exigentes demais ou se apenas, realmente, estamos reivindicando um direito como seres livres, como pessoas, independente de termos nascido ou escolhido sermos mulheres.


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