Nem princesa, nem guerreira

Uma vez, um aluno me disse:

— Suas aulas são muito boas, pena que você é tão feminista.

E essa frase me impactou. Primeiro porque acho que tenho muito a aprender ainda neste caminho do feminismo. E segundo por que me fez refletir: porque eu preciso ser tão mais feminista ?


Eu cresci como a maioria das mulheres da geração anos oitenta pra ser princesa. Acreditando na idealização do amor romântico como final feliz, assim como nos contos de fada.


O problema é que ninguém ensina nas histórias infantis como viver feliz pra sempre, quando as contas apertam, os filhos e filhas nascem ou os interesses da princesa e do príncipe mudam.

E aí, quando o final acaba em briga, abusos, destruindo tudo que se sonhou, te olham e dizem:

— Você é uma guerreira, já passou por coisa pior, vai sobreviver.

E aquela mudança de vibe de princesa para guerreira, não acontece dentro de ti, apenas com a afirmação de alguém sem noção. Mas a gente se esforça, corre atrás, faz terapia, procura ajuda espiritual e um dia, depois de curadas as feridas da frustração de ainda não ter tido o “viveram feliz pra sempre” prometido, você acorda e lá está a guerreira. Exausta.

Você, que não conseguiu manter o príncipe feliz ao seu lado (sim, porque desde que culparam a Eva por morder a maçã toda a responsabilidade dos relacionamentos e culpa recaiu sobre a mulher), se tornou uma faz tudo sem remuneração. Da organização mental da casa aos cuidados sozinha com a prole, a guerreira assumiu. E além disso, tem que malhar pra ser gostosa, trabalhar pra ter grana, gastar uma fortuna em tratamentos de beleza pra estar apresentável e achar o futuro príncipe, por que né? Mulher sozinha é mal amada.

Parabéns! Você passou a fase da princesa — mesmo querendo voltar a ela, porque esse é o ideal que te ensinaram, e virou uma guerreira. Exausta.


Então da próxima vez que alguém disser que eu sou muito feminista, eu vou me lembrar que eu queria apenas ser gente, mas como a nossa sociedade não enxerga todos os espectros possíveis entre princesa e guerreira, como enxerga os dos homens — e aceita—, eu terei que ser ainda mais feminista, pra que um dia eu possa ser apenas gente e descansar.


Porque ser mulher é exaustivo todos os dias, quando ouvimos uma cantada de alguém que nem sequer olhamos, quando um homem acha que pode nos abraçar e tocar sem permissão, quando fazemos a maior parte do trabalho, mas o homem que ocupa a mesma função que nós ganha mais. Quando chego em casa exausta e o pai da criança nem sabe da noite terrível de febre, porque já pagou a pensão e ficou 48 horas no fim de semana pra que, segundo ele, você possa gastar a fortuna que ele te “dá”, com outra rola.


Nunca me encaixei no modelo princesa, mas também não quero ser guerreira. Eu só queria , mesmo, era ser gente e poder descansar como o pai do meu filho, dos filhos das minhas amigas e todos os outros homens que estão fazendo qualquer outra coisa enquanto suas parceiras cuidam da casa, das compras, das roupas e das crias. Mas enquanto a sociedade não me permitir ter os mesmos direitos que eles, a única coisa que me resta ser é feminista.

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