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  • Luísa Aranha

Sono interrompido

Sinto um calor que emana de mim. Ou será do contato com sua pele quente. Todos os meus sentidos se aguçam percebendo sua presença dominadora em minha cama. São braços pesados a me envolver, uma mão a me segurar com força. A respiração ressonando em meu pescoço. Tão próximo de mim que posso sentir como se fosse alguma parte desconexa do meu corpo.

Seu perfume que me harmoniza. Seu poucos pelos que fazem cocegas as minhas costas. Eu sinto tudo. Tão real, tão próximo, tão verdadeiro. Mas eu sei que a cama está vazia. Que ao meu lado, apenas um travesseiro. Então como eu sinto? Eu tenho a consciência que ele não existe. Não ali, não me segurando ou me tocando.

Não posso me mexer. Não quero abrir os olhos e conferir a verdade sobre meus instintos. É tão reconfortante senti-lo dentro. Tão acalentador sentir seu cheiro. Tão perturbador saber que não está ali. Eu sinto em todas as partes do meu corpo. As pernas entrelaçadas. Sua virilha me pressionando. Posso até sentir sua necessidade de mim.

É tão perturbador, insolente. Um conflito de sentimentos e realidades. De desejos e vontades. De urgências nunca abrandadas, de calor. Muito calor. Sinto seu suor nas minhas costas. Sinto meu suor no meu rosto. Sinto nossos cheiros se misturando. Eu sinto, mas não posso abrir os olhos. Se abri-los eu sinto que perderei tudo.

Então eu escuto, escuto alguém chamando pelo meu nome, distante. Uma voz rouca, sussurrada, cheia de promessas veladas. E sei que não é ele. Mas quero acreditar que seja. Por favor, não me interrompa se não for pra me dar tudo aquilo que eu preciso.

A voz aumenta, não me parece mais agradável. Portas se abrem e se fecham. Eu sei que ele não está ali. Mas enquanto mantenho os olhos fechados eu o sinto. E eu não quero parar de sentir. Mãos me sacodem e não são as deles. Eu ouço, mas não quero escutar.

Por favor, agora não! Não interrompa meu sono cheio de sonhos e desejos. Não me desperte dessa sensação. Não abrirei meus olhos. Quando nada se tem de olhos abertos. Me deixe aqui, com ele. É uma migalha pequena, eu sei. Mas quero continuar com ela. Me deixe, não quero mais acordar. Preciso ficar.

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