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  • Luísa Aranha

Sobre copinhos e a modenidade primitiva

Um dia, se tiver netas, conversarei com elas sobre menstruação.  Teremos longos papos sobre TPM, sanguinhos, cólicas e choros. Contarei a elas sobre a ansiedade de esperar para “virar mocinha” e a tristeza de descobrir que aquilo aconteceria na minha vida milhares de vezes, uma vez por mês.

Provavelmente conversaremos sobre o assunto mais de uma vez. Em idades diferentes, com amadurecimentos, perspectivas e entendimentos diferentes. Algumas vezes deverei lhes contas casos engraçados, vergonhas e constrangimentos passados durante “aqueles dias”. Lhes falarei da minha primeira vez e de como minha mãe informou a toda família, nas escadaria de uma igreja, depois da missa de sétimo dia de uma tia do meu pai.  (É mãe, isso não foi legal!) Vou contar para elas sobre os absorventes, que nem eram absorventes na minha primeira menstruação e sim “modess” que nem aba tinham. Contarei de como eles incomodavam e como sentíamos o mundo inteiro nos olhando por usa-los. Falarei da evolução. De como eles ficaram mais finos, cheirosos, menos agressivos e ganharam abas aderentes as calcinhas. Talvez lhes conte também sobre absorventes internos e sobre todas as minhas amigas que esqueceram de puxar a tal cordinha e depois entravam em desespero para tirar. Possivelmente, minhas netas ficarão imaginando como eram esses métodos estranhos, assim como eu imaginava as “toalhinhas” usadas pelas minhas avós. Elas serão da geração do copinho. Ou do coletor menstrual, se preferir. Uma geração que achará bizarra a ideia de absorventes. Que terá um certo nojinho de usar algo que causa alergia, mal cheiro, faz sujeira, corre o risco de vazar e ainda agride a natureza. Tanto a feminina como o meio ambiente.  Não entenderão as nossas escolhas e vão se perguntar porque não aderimos o coletor menstrual antes. Desde que aderi o copinho me pergunto isso todas as vezes que utilizo. Porque uma ideia tão simples, perfeita e primitiva levou tanto tempo para nos ser apresentada. Passamos anos sofrendo com alergias, vazamentos e desconfortos. Utilizando quilos de algodão, causando infecções em nossos próprios corpos, quando já haviam pensado na solução. Somos a geração dos descartáveis. Daqueles que pensam que nunca nada no mundo acabará. Que podemos consumir sem pensar. Absorventes são um exemplo disso.  Sofremos pela nossa modernidade liquida, volúvel e descartável. Sofremos por acharmos que o mundo era assim mesmo e produzir lixo é nossa única saída (uma mulher de 35 anos que menstruou aos 12 e tem um ciclo de 4 dias, gastou, em média, 5500 absorventes na vida ou mais...). Ou consumíamos absorventes ou passaríamos manchadas e virando motivo de piadas (afinal, uma coisa biológica e natural ainda é motivo de vergonha e de piadas).

Até que um dia, em meio a tantas tecnologias, pílulas e absorventes de tamanhos, espessuras e cheiros diferentes, surge o coletor menstrual, se espalhando pelo mundo. Uma ideia tão simples que chega a ser primitiva e nos faz refletir sobre como nos falta simplicidade  na vida.

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