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  • Luísa Aranha

Noites insones

Eu sinto saudades das noites insones. Das conversas fiadas, as indiretas trocadas, as provocações veladas. Sinto falta de quando não nos preocupávamos com sentimentos complexos. De quando éramos puros, sinceros e não queríamos controlar afetos possíveis.

Procuro ainda pelos dias preguiçosos na memória. O sorriso bobo no rosto. A cara de zumbi do dia seguinte. A cumplicidade de só nós dois sabermos os motivos. Aquela lembrança genuína que fazia o olhar brilhar, a boca se abrir, a felicidade invadir.

Sinto mesmo. Falta, saudade, vontade. De viver de novo, de poder contar ao mundo, de apagar a complicação que criamos para algo que era simples. Ainda não entendo porque não conseguimos manter o que de mais puro existia.

Fomos nós que complicamos. Com manias, controles, regras impostas e medos escancarados. Era tão fácil, ingênuo e transparente. Mas o medo turvou as vistas. A neblina encobriu o coração e as curvas da estrada foram aceleradas demais.

Ainda assim sinto saudades. Noites e mais noites ao teu lado, tua voz no meu ouvido repetindo para não termos pressa. Me guiando pelo escuro e me encontrando em teu peito. Lembro de nós. Exaustos. Meu corpo encaixado no teu. Teus braços envolta de mim, teu nariz afundado em meu pescoço. Eu dormia feliz, mesmo nas noites de pavor. E os pesadelos que me atormentam não existiam nesses dias.

Sinto saudades. E mesmo que nada possa ser reescrito, que não existam outros finais a serem ensaiados, eu me aninho em teu corpo e deixo a lembrança da tua respiração pesada velar o meu sono.

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