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Manifesto pela democracia

há 10 minutos
5 min de leitura


Escrevo porque há coisas que não aceitam permanecer caladas.

Acompanhei Fabiano e Baleia enquanto atravessavam a caatinga com poucas palavras e muita sede, não apenas para chorar, mas para entender que a desigualdade não era destino.

Vi Paulo Honório transformar terra, trabalho e até amor em propriedade e descobri, ao fim, que a riqueza acumulada não impedia uma casa de se tornar ruína.

Carolina recolhia papéis no lixo e escrevia a cidade a partir da fome, obrigando quem sempre desviara os olhos a enxergá-la: ali na rua, todos os dias, no rosto de cada homem e mulher invisível.

A literatura nos entrega essas vidas para que já não seja possível fingir que não sabemos.

Um país que lê aprende que nada do que parece natural é inevitável. A fome é produzida, a riqueza se concentra por escolha, e o racismo elege seus suspeitos antes que falem. A leitura também revela a violência quando ela se disfarça de fé para expulsar, vigiar e punir, e o privilégio escondido sob a palavra mérito.

Ler é atravessar o mundo por dentro de outros olhos. É entender que uma pessoa não é apenas aquilo que me ensinaram a ver nela. É reconhecer, na voz de quem nunca tive oportunidade de ouvir, uma parte do país que me foi negada.

É por isso que os livros incomodam.

A censura raramente chega dizendo seu nome. Ela não entra sempre de botas, com uma lista de proibições e um carimbo oficial. Às vezes chega como uma mensagem de WhatsApp. Às vezes se veste de zelo pelas crianças. Às vezes chama uma história de “imprópria”, uma pergunta de “doutrinação”, um beijo de “ameaça”, uma religião de “perigo”, uma personagem de “mau exemplo”. Às vezes diz que não está proibindo: está apenas retirando de circulação, revendo, redistribuindo, guardando em algum lugar onde ninguém possa alcançar.

Mas reconheço a censura quando ela tenta ensinar medo à imaginação.

A sombra cai quando uma história sobre princesas negras, nascidas de mitos africanos, torna-se suspeita apenas por existir, como ocorreu em 2018, numa escola do Sesi em Volta Redonda. Ela ronda também a menina que queria ser escritora e experimentar outras formas de ser no mundo, tratada como ameaça em Limeira, em 2019. E aparece quando dois jovens heróis que se beijam precisam ser escondidos em plástico, como se o afeto entre eles fosse contrabando, como na Bienal do Livro do Rio, naquele mesmo ano.

A mesma mão que tenta fechar um livro convocou, em Rondônia, em 2020, quarenta e três obras a desaparecer das estantes de uma escola: o homem que narra depois de morto, o herói sem nenhum caráter, as histórias de quem insiste em pensar o Brasil por suas fraturas. Ela retirou de um vestibular, em Goiás, em 2023, um romance porque alguém decidiu que o desejo de seus personagens era indecente. E empurrou nove livros para depósitos inacessíveis nas escolas estaduais de Santa Catarina, também em 2023, sob o pretexto de protegê-los de seus próprios leitores.

Esse medo do que uma história pode despertar impediu, em 2024, que um filho encontrasse nas escolas de três estados a memória do pai negro assassinado pela polícia. Calou, em Conselheiro Lafaiete, uma amizade infantil que falava da cor de pele. Em São José dos Campos, afastou das salas de leitura mulheres cientistas, pensadoras e uma vereadora negra assassinada, como se suas existências fossem uma ameaça.

Não são casos soltos. São ensaios de silêncio.

Isso não começou aqui. Os fascismos entenderam que controlar os corpos exige também controlar as palavras. Na Itália de Mussolini, editoras, escritoras e escritores foram postos sob vigilância; na Alemanha nazista, livros considerados “não alemães” arderam em praças, enquanto autores judeus, pacifistas, socialistas e dissidentes eram expulsos da vida pública. O franquismo confiscou bibliotecas e escondeu livros em seus próprios infernos; as ditaduras do Cone Sul prenderam, exilaram e silenciaram quem escrevia.

Os governos de extrema direita podem mudar de país, de uniforme e de método, mas reconhecem o mesmo inimigo: a imaginação que não se ajoelha. Por isso vigiam o que circula, reduzem a cultura ao que serve ao poder e tentam decidir quais histórias merecem uma estante, quais vozes podem falar e quais devem desaparecer.

A ditadura brasileira também falou em moral, bons costumes, segurança, família. Proibiu narrativas sobre violência e tortura; perseguiu escritoras que ousaram escrever o desejo entre mulheres; queimou possibilidades antes que elas chegassem às mãos de quem poderia lê-las. A democracia não se perde apenas quando se fecham parlamentos ou se prendem opositores. Ela também se estreita quando uma criança aprende que há perguntas que não pode fazer e histórias que não deve conhecer.

Não escrevo para produzir unanimidade.

Não escrevo para que todas as pessoas concordem comigo, nem para que meus personagens sejam bons exemplos. Escrevo porque o humano não cabe em cartilhas. Porque há contradição na vida, desejo nos corpos, ambição no poder, dor nas casas, violência nas instituições e beleza onde tentaram me convencer de que havia apenas ruína.

Um livro não precisa salvar ninguém para ser necessário. Mas pode dar a alguém uma linguagem para nomear aquilo que a machuca. Pode fazer uma adolescente perceber que não está sozinha. Pode oferecer a um menino negro uma imagem que não seja a da ameaça. Pode mostrar a uma criança que a fé também pode ser acolhimento, e não castigo. Pode lembrar a quem nunca faltou comida que a fome tem nome, cheiro, corpo e endereço.

É assim que se formam leitoras e leitores críticos: não pela repetição de palavras de ordem, mas pelo encontro com a complexidade. Pela experiência de perceber que o mundo pode ser narrado de outro modo. Pela descoberta de que toda versão dos fatos tem uma voz, um interesse, uma ausência.

Desmontar a leitura é desmontar essa possibilidade.

É fazer da literatura um luxo, da biblioteca um depósito, da escola um lugar de obediência. É reduzir o livro a mercadoria ou enfeite; é pedir que quem escreve sobreviva apenas de improviso e cansaço; é aceitar que a cultura seja sempre a primeira a ser tratada como dispensável. É deixar que o país se acostume a uma cidadania que recebe informações, mas não aprende a perguntar quem as escreveu, a quem servem e o que escondem.

Recuso esse projeto.

Defendo o direito de toda pessoa ler sem tutela moral. Defendo a escola como lugar de encontro com aquilo que nos desafia. Defendo bibliotecas abertas, vivas, habitadas por vozes indígenas, negras, periféricas, dissidentes, populares, clássicas, estrangeiras, infantis e adultas. Defendo a palavra livre não porque seja inofensiva, mas porque a liberdade nunca foi feita para ser inofensiva ao autoritarismo.

Quero um país em que escrever não seja um ato solitário de resistência, mas uma forma legítima de participar da vida comum. Um país em que o livro circule pelas escolas, pelas praças, pelas casas, pelas prisões, pelos ônibus, pelos hospitais, pelos interiores e pelas periferias. Um país em que ninguém precise pedir licença para imaginar.

Porque toda vez que uma pessoa lê uma história que lhe foi negada, uma parede cai.

Toda vez que uma criança encontra um personagem que a reconhece, o mundo se alarga.

Toda vez que uma leitora recusa uma mentira fácil, a democracia respira.

Escrevo para que ela respire.

 
 
 

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