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  • Luísa Aranha

Eu me importo

Ontem a noite eu fiquei um pouco chocada com os comentários que eu li em um grupo que administro. Esse post de hoje vai ser bem diferente de tudo que vocês costumam ler por aqui. Vai ser diferente porque eu preciso desabafar em algum lugar e eu preciso crer que existe esperança pra nossa humanidade, que anda mais desumana que qualquer animal irracional.

Eu não me importo se você foi criado em uma sociedade machista e que ache que é certo mulher ficar na cozinha. Eu Não me importo se você acha que depressão é mimimi. Eu não me importo se você acha que gays escolhem ser assim. Eu realmente não me importo se você acha que só é bonito quem é magro. Eu não me importo com o que você acha, pensa ou sabe.

Mas eu me importo e muito se você, achando qualquer uma dessas coisas acima, machucar outra pessoa, com palavras, gestos ou a exposição de seus pensamentos.

Eu me importo quando você diz que mulher deve se dar o respeito para não ser assediada na rua. Eu tinha apenas 10 anos, nem mulher era ainda, estava de abrigo, andando de bicicleta, quando um homem bloqueou com seu carro a minha passagem e bateu punheta para mim. Onde foi que eu não me dei o respeito para ele fazer isso?

Eu tinha 18 anos, estava num show de rock andando de mãos dadas com meus amigos quando um cara meteu a mão na bunda. Eu nem havia olhado para ele. Mas esse, eu já sabia como me defender e não tive dúvidas em segurar seu saco e torcer e apertar com toda a força que eu poderia.

Eu tinha 24 anos quando meu ex-noivo me agrediu em uma festa, porque eu não gostava mais dele, tinha cansado de seus abuso e resolvi terminar. Parei em uma delegacia. Tinha medo de sair a rua e encontra-lo novamente. Minha mãe me buscava no meu trabalho e me deixava pra eu não correr o risco.

Eu tenho amigas que apanharam por dizer não para um cara em uma balada. Elas não poderiam só querer dançar? Ou não tinham o direito de escolher o carinha com quem queriam ficar?

Eu me importo quando você fala que meu melhor amigo escolheu ser gay. Escolheu e tem que aguentar as consequências de sua escolha. Como se ele houvesse escolhido se vestir com uma calça laranja larga e uma blusa amarela.

Você sabe o que ele passou para conseguir se assumir? Numa sociedade que não normatiza o amor e sim o sexo? Você tem noção de como ele se sentiu ao contar para os pais e saber que de alguma forma não era isso que eles queriam para ele?

Você realmente acha que alguém escolhe correr o risco de encontrar uma pessoa na rua que vai te chamar de bichinha, veadinho ou te espancar só porque você é diferente dele e ele não entende isso?

Eu me importo quando você diz que meu amigo que se matou estava de mimimi. Que ele apenas queria chamar a atenção. Me importo quando você diz que depressão não é doença. Que tristeza e depressão são a mesma coisa.

Meu amigo estava triste. Ele não via saída. Estava tão doente que não percebia que ele precisa se tratar. Então escolheu o único caminho que achava que havia pra ele. O silêncio.

Eu me importo quando você diz que uma pessoa negra precisa se aceitar. Me importo quando você diz que a cor da pele da pessoa não influência em suas chances. Que condição social não é pré-requisito na sociedade.

Eu tinha 11 anos, quando meu pai de criação, que é negro, saiu com amigos e foi abordado por policiais que o espancaram porque ele deu o endereço de uma zona chique e negro não podia morar lá.

E você acha que isso aconteceu apenas uma vez? Não. Outra vez abordaram ele porque o casaco dele era caro e queriam saber de quem ele havia roubado.

E se eu for continuar esse texto sou capaz de escrever um livro com tantas histórias minhas e de outras pessoas a minha volta que em algum momento sofreram por pensamentos como o seu.

Eu não me importo com o que você pensa. Mas me importo quando você abre sua boca ou libera o seus dedos para falar, do conforto do seu sofá, de coisas que você nunca viveu. De coisas que vão além da sua condição no mundo. Pense como quiser. Pra mim não faz diferença, mas antes de sair expressando sua opinião, se coloque no lugar do outro, não como você, mas como o outro. Isso chama-se EMPATIA e é o que mundo mais precisa agora…

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