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  • Luísa Aranha

Uma carta de revolução

Com o passar do tempo eu desisti de acreditar nas reformas. Reformar algo é, apenas, dar uma repaginada em algo que já existe e não é bom. Porque se fosse bom não precisaria de reforma. Eu acredito em mudanças. Em destruir e construir. Não reconstruir. E acredito, principalmente, que toda e qualquer mudança começa dentro de nós.

Você já analisou quantos conceitos e ideias você mudou ao longo dos anos? Já percebeu como uma pensamento corriqueiro e normal do seu eu mais novo hoje lhe parece absurdo? Parece errado? Eu não sei vocês, mas eu… Eu mudei muito, minhas ideias, conceitos, preconceitos e ações.

Se antes eu achava que a mulher que dava em cima do namorado da outra era uma vagabunda e xingava ela com todas as forças, hoje acho que o homem que dá a brecha é que o vagabundo da história. E engraçado que a mesma palavra, apenas com o artigo feminino ou masculino carregue significados tão diferentes. Porque quando falamos vagabunda associamos a puta, prostituta, mulher que não se respeita (mesmo que nada disso faça sentindo) e quando falamos vagabundo queremos dizer homem preguiçoso, que não quer fazer nada, trabalhar… (mesmo que isso também não faça sentindo).

Segundo o dicionário, vagabundo é que ou quem leva vida errante, perambula, vagueia, vagabundeia. Que ou quem leva a vida no ócio; indolente, vadio. E se formos por essa linha, veremos que o significado de vadio e vadia também são diferentes, e assim tantas outras palavras…

Mas para perceber isso eu destrui muita coisa dentro de mim. Coisas que eu perpetuava sem nem saber o porquê. Apenas porque eu aprendi dessa forma. Porque fui criada numa cultura que dizia que a menina deveria se casar virgem e o menino deveria ter experiências. Em uma sociedade que permite que os homens sejam vistos como superiores e as mulheres com submissas. Eu um universo que diga que existem coisas que são para meninos e coisas para meninas.

Então eu mudei. Mudei de dentro para fora. Por que eu precisava seguir as regras do que me foi imposto por um órgão genital se a lei diz que somos todos iguais? Que moral é essa que vai contra a lei? Se somos todos iguais, meninos e meninas, tanto faz se eu gosto de azul ou rosa. Se quero jogar bola ou brincar de casinha. Se quero casar virgem ou não. Se somos todos iguais, palavras que flexionam devem mudar apenas uma letra. Não seu significado.

E foi assim, desse jeito, pensando nas coisas que eu não entendia, que haviam me sido impostas, que eu mudei. Mudei e comecei a minha revolução. Que é pessoal, que atinge a poucas pessoas perto de todo o vasto universo de gentes que estão espalhadas pelo mundo. Mas que me destruiu e me permitiu, começar do zero a acreditar, que realmente, somos todos iguais.

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