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  • Luísa Aranha

Semente da esperança

Meu corpo inteiro doí. Não é a primeira vez, mas eu tentei que fosse a última. Agora, alem da carne que lateja a alma sente o peso da humilhação. Apanhar era uma humilhação que eu estava acostumada. Não fazia mais a alma gemer. Eu sentia na pele, cicatrizava as feridas e seguia em frente. A alma sangrando, desse jeito, depois de não ter a mão estendida... essa humilhação... não sara.

Eu acreditava que ele ia mudar. Do fundo do meu coração, as flores, os bombons e os carinhos, pareciam compensar cada mão estampada em meu rosto. Ele queria o meu bem. Cuidava de mim e se perdia a cabeça era porque eu me comportava mal. Papai e mamãe sempre disseram que eu era uma menina má. Assanhada, alegre demais, sem gostar de dar satisfação ou abaixar a cabeça para qualquer coisa.

“A vida vai lhe dar um corretivo se você seguir desse jeito, minha filha!”

Como a vida não tem mãos ela colocou em meu caminho ele para que pudesse cumprir suas promessas de me tornar uma pessoa melhor. Foram tantos mimos, elogios e carinho que eu me apaixonei. Sempre galanteador, limpo e educado ele parecia o príncipe de qualquer conto de fadas. E eu que nem acreditava nessa baboseira de final feliz, aceitei, com um sonoro “eu te amo” para sempre meu destino.

Os primeiros corretivos da vida eram verbais. Não use essa roupa. Não saia com a Fulana. Não olhe para o lado. Não converse com o entregador da padaria. Não. Não. Não. Eu até achava bonitinho, um ciúmes bobinho, inocente e que me parecia ser amor.

Minhas amigas, amigos, família, diziam que aquilo estava errado e eu jurava que todos estavam com inveja. Afinal, quem havia de ter tanta sorte como eu de conhecer um príncipe que me amava e cuidava de mim. Proteção era zelo, era amor.

No dia que a mão se estatelou em meu rosto, ela foi acompanhada de um “desculpa, perdi a cabeça” e mil carinhos. No dia que um punho fechado quebrou meu nariz, foi acompanhado de um “te amo”e a promessa de nunca mais acontecer. No dia em que eu não quis sexo e ele se enfiou em mim me rasgando inteira foi acompanhado de um “você é a melhor mulher do mundo”. Não foi estupro, ele é meu marido. Eu disse não, mas ele tem direitos sobre mim.

Perdi as contas de quantas vezes eu disse não. De quantas vezes ele forçou sua entrada entre minhas pernas. De quantas vezes eu chorei depois porque doía. De quantas vezes mãos estamparam meu rosto, punhos deixaram marcas roxas e meus braços foram sacudidos empurrando todo meu corpo contra o chão. Mas era meu corretivo. Papai havia me avisado que a vida se encarregaria. Quem mandava eu ser uma menina má?

Meu sangue não desceu e os dois tracinhos no palito comprado na farmácia e mergulhado na urina em um banheiro sujo e fétido indicavam o que eu tinha medo: Havia uma semente do meu corretivo dentro de mim. Ele não queria plantar. Eu sabia disso, havia me avisado muitas vezes, das formas mais diversas, inclusive quando me disse que puta como eu não podia por criança no mundo, não tinha como educar um filho e que se um dia isso acontecesse a vida acabaria pra mim.

Eu sempre quis ser mãe. Ele tinha me feito perder a vontade. Mas agora, agora a semente estava ali. E como eu um passe de mágica eu descobri o que era amor. Porque foi só os dois tracinhos despontarem rosados no palito mijado que um sentimento novo tomou conta de mim. Não haveria mais corretivos, mãos estampadas ou roxos pela carne. Não haveria mais violações do meu ventre e aquela sementinha seria só minha.

O que dói é que entrei na delegacia. Aquela que me disseram ser especializada para mulheres como eu. Um homem, vestido de calça jeans e camiseta, barba por fazer e sem o menor tipo de compaixão pelo ser humano, me olhou dos pés a cabeça. Perguntou o que eu queria. Expliquei. Do jeito que eu pude, do jeito que deu. Agora todos os corretivos me pareciam tão errados que meus olhos não seguravam a enxurrada que deles brotavam e minha boca não continha os inúmeros soluços e gemidos abafados ao longo de tantos anos.

- Você apanha há 5 anos e agora quer denunciar? – O homem que deveria me proteger disparou uma sonora gargalhada e me aconselhou. - Volta pra casa, faz as pazes com teu marido e respeita ele. – Virou de costas e saiu, sem me ouvir.

Eu não podia voltar pra casa. Minha sementinha não merecia crescer assim. Ou não ter chance de nascer. Eu não tinha dinheiro, não tinha onde morar, já não tinha amigos e meus pais não me aceitariam de volta. Eles acreditavam que meu marido era um homem bom, que só estava me ensinando o que eles não conseguiram. Agora eu sabia. Aquilo não era ensinamento ou corretivo. Era violência, era estupro, era abuso. E eu não merecia.

Em frente a delegacia, sem saber o que fazer, pensando em como aquele homem pode rir da minha cara e sentindo fundo na alma o desespero de não ter ajuda onde deveria haver conforto, um anjo estende a mão.

- Você precisa de alguma coisa?

Seu sorriso era materno. Suas cicatrizes indicavam que havia passado perto do inferno como eu e sua mão um papel estendido em minha direção.

“Você pode estar confusa agora, mas sim, isso é violência contra a mulher! Somos muitas e podemos nos ajudar...”

Abracei o anjo. E o sorriso preso em minhas estranhas se fez em meu rosto. E em algum lugar encontrei esperanças.

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Este conto fará parte da Antologia "Isso também é preconceito!" Organizada por mim e pela Gislaine Oliveira. Em breve tem novidades sobre esse trabalho!

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