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  • Luísa Aranha

Não digo

— Oi, tudo bem?

Não respondo.

Conheço a pergunta

e o não querer saber

que vem impregnado a ela.

Não vejo suas mãos,

o jeito que a boca angula,

mas sinto a respiração pesada,

tentando dizer algo a mais

que as palavras ofegantes.

Não quer ouvir,

precisa falar.

Aprendi a ouvir desde sempre.

Mais do que a ser ouvida.

As palavras sempre me faltam.

As certas,

aquelas que eu realmente

gostaria de dizer.

Aquelas

que falam mais do que dizem,

mais do que os medos permitem.

Sua voz tem peso, tem receio.

Eu também sempre tenho. Do que?

De perder o que não temos?

Não respondo a provocação.

Por mais que queira dizer que agora está tudo bem, mentir.

Eu escuto seu desabafo.

Sem saber por onde ir,

sem entender o sentido,

sem ao menos conseguir dizer que também dói a ausência,

a presença fantasma,

a incerteza.

Que não sei esperar.

Quero gritar,

como uma menina mimada,

preciso de atenção.

Que não são meses ou dias,

é uma vida.

Ou várias, quem vai saber?

Esperando pra ser amada.

Mas as palavras falham,

o orgulho se instala,

e, na garganta,

morre o grito.

Eu não digo.

E no fim,

nem respondo,

que não está tudo bem,

mas escrevo,

em forma de rima,

que um dia,

quem sabe finda,

essa minha mania,

de gostar em demasia,

de alguém que não quer

realmente saber,

se está tudo bem.

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