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  • Luísa Aranha

Espelho, espelho meu, existe alguém mais fútil do que eu?

Indiscutivelmente, espelhos e mulheres podem ser os melhores amigos ou os piores inimigos. A futilidade feminina transformou a relação com um espelho em algo indispensável como se só nossa aparência contasse nesse mundo. Nada mais tem valor. Somente os conceitos estéticos. E ainda há quem diga que a celebre frase do poeta “as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental” tem realmente alguma ligação com o espelho.

“Espelho, espelho meu, existe no mundo alguém mais belo do que eu?” pobre da rainha da Branca de Neve que não entendeu que o espelho não estava falando apenas da beleza visual quando disse que a Branca era mais bela. Sim, porque convenhamos, de bela ela não tinha muita coisa, a pobrezinha.

A beleza que faz com que milhares de mulheres, e quem diria nesse novo século homens também, gastem todas as economias em botox, fios russos, plásticas, academias, alimentos orgânicos, lights diets e o escambau, tem muito mais relação com a baixa autoestima do que com beleza em si. Num mundo onde todos querem ser a nova Gisele Bünchen e ninguém quer Sócrates, Platão, Jesus Cristo, Einstein, Picasso ou Mozart sobram espelhos e falta conhecimento.

Nada contra as pessoas bonitas. Muito pelo contrário. Mas alimentar a alma deveria ser tão ou mais importante que alimentar o corpo. Pensar em malhar o cérebro deveria vir antes de aglomerar músculos, endurecer o bumbum ou colocar silicone nos peitos. Imagina se colocássemos cem miligramas no cérebro. Conhecimento e cultura, ainda não vem em pílulas que se toma no café da manhã. Ainda bem.

Esquecemos de olhar o outro. Só nos interessa o que é nosso. O que está em nosso espelho. O que vem do outro é lixo. Luxo só comigo meu bem. Entre tantas coisas que o espelho causa a individualidade, o egoísmo e a falta de solidariedade estão nele. Enquanto olhamos admirados e com tamanho amor para o nosso reflexo não percebemos a dor do outro. A beleza do outro e o mundo do outro.

Seres humanos, totalmente egocêntricos, egoístas, imaturos, incultos e imorais muitas vezes. Fúteis, sem metas na vida, com um amor próprio exacerbado e sem nenhum pingo de humildade e modéstia. Isso que nos tornamos. Seres individuais. Esquisitos, preocupados somente com a casca. Totalmente ocos por dentro.

Tudo culpa do espelho. Que um dia enganou os índios nas colonizações e hoje continua enganando todas as civilizações. Que um dia fez Narciso morrer seco e solitário e hoje continua causando o mesmo efeito em milhares de pessoas. Se o reflexo tem tanto poder não está na hora de usarmos ele para algo que realmente valha a pena e que não pode ser comprado em farmácias e clínicas?

Não sei não. Mas do jeito que vamos morreremos todos assim. Plastificados, com botox em todos os lugares possíveis, vazios por dentro, solitários e sem nunca teremos sentido o prazer de ver o sorriso no rosto de outra pessoa. Espelho, espelho meu, existe alguém mais fútil do que eu?

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