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  • Luísa Aranha

Diário de uma mulher que espera o fim

Algumas pessoas nascem pra ser infelizes. Talvez eu seja uma delas. Enquanto tento abafar meu choro ele ronca ao meu lado como se nada tivesse acontecido. Pra ele, realmente, nada aconteceu. Nada que abale seus sentimentos, suas masculinidade ou seu dia a dia.

Pra mim o mundo acabou de acabar. Uma sucessão de eventos que fazem com que cada amanhecer seja mais penoso. Que retarda cada vez mais a minha saída da cama na manhã seguinte. Só quando durmo estou em paz. Somente assim, dormindo, me esqueço do fardo que carrego de ser infeliz.

Em outros tempos vi a felicidade bater em minha porta. Deixei-a a entrar. Não entendo os motivos que fizeram ela partir. Nem exatamente quando ela saiu. Só sei que se foi. E nunca mais voltou. Sem deixar pistas fugiu da minha vida.

Aos poucos, tudo ficou cinza. Primeiro o lado profissional. O emprego que se foi. As decisões erradas e nada mais restava. Só sombras de um passado. Fantasmas que se tornaram assombrações. Depois de tantas batalhas, lutas e vitórias o nada. E com isso as contas que se acumularam, as dívidas que se arrastam e a impossibilidade de comprar um alfinete sem ajuda. Aqui aconteceu a primeira das mortes: a independência.

Depois os planos. Todos empacados ou jogados fora pela falta do dinheiro. Nada ia pra frente porque sempre esbarrava na mesma nota, ou na falta de notas... sem viagens, sem cursos, sem salão de beleza. Sem tudo. Ou com nada. Houve a segunda das mortes: a esperança.

Como se isso já não bastasse faltou a vontade de se arrumar. Pentear, escovar os dentes, tomar banho, se vestir, usar perfume, passar um batom. Pra que? Ninguém iria me olhar. As roupas não ficam bem. Todas velhas, desbotadas, apertadas. Melhor ficar assim. A terceira das mortes: a auto estima.

Com as mudanças os amigos também faltaram. De visitas e saídas restaram apenas os encontros virtuais. Minha voz pouco eu ouvia. Meus dedos aprenderam a falar. Cada vez com mais rapidez e agilidade pra não perder o assunto. Sempre sem o calor humano. Sem os olhares e trocas de reações: A quarta das mortes: a verbal.

Só me sobrava uma coisa: o amor. Esse caminhava bem. Me sentia segura, desejada e amada. Tínhamos diálogo. Um bom relacionamento. Éramos companheiros. Construímos uma história juntos. Galgamos degraus, pulamos pedras, movemos montanhas e chegamos ao topo. Era perfeito.

Foi aí que constatei meu fim e minha sina. Não nasci pra ser feliz. Porque o amor também fugiu de mim. Começou com a falta de assunto. Ele foi se afastando de minha vida e não deixando que entrasse mais na sua. Nos tornamos estranhos dividindo a mesma casa. As palavras trocadas era somente sobre contas, compras e uma banalidade ou outra.

“Eu te amo” passou a ser usado em momentos de pena. E não mais de carinho. Confesso minha culpa. Comecei a me afastar também. De tantas coisas que davam errado e sem encontrar seu apoio me isolei em meu mundinho. Não conseguia mais falar e como já estava me habituando a somente digitar ficava cada vez mais fácil esquecer o som da minha voz: A quinta das mortes: a indiferença.

Ainda dormimos na mesma cama. O ninho de amor. O contato físico. A união dos corpos. Nisso sempre fomos perfeitos. Os céus ficavam próximos da terra quando nos encontrávamos. O cansaço dele me tirou isso também. Cada vez mais escassos nossos encontros de amor se tornavam. Minhas investidas eram descartadas pois o sono o embalava. E quando me procurava, me sentia suja, usada, um objeto pra aliviar suas frustrações. A sexta das mortes: me tornei um ser assexuado.

A mim não restava mais nada. Nem prazer. O peso das desilusões tomou conta de mim. As portas e janelas fechadas me sufocam cada vez mais. Não consigo mais respirar. Não consigo mais me alimentar. Todas as possibilidades de ser feliz se foram.

Essa noite não foi diferente. Estou aqui. Estava aqui. Sedenta por amor, carinho, paixão. Uma palavra de esperança. Um abraço apertado. Um beijo apaixonado. Um pouco de prazer. Fui usada. Cumpri a minha função nessa relação.

Minhas lágrimas escorrem pelo rosto. Abafo meu choro. E ele? Ele ronca ao meu lado. A mim só resta ser o mais infeliz possível e esperar pela verdadeira e derradeira ausência de tudo: A morte. E que essa me seja leve já que a vida não foi.

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