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  • Luísa Aranha

Amor de verão

Último dia de praia. O verão estava acabando.  O retorno para casa era inevitável. As aulas começariam, meus pais voltavam a trabalhar e a rotina que fazia com que o ano fosse enrolado e vagoroso iria retomar seu lugar em minha vida, me deixando mais uma vez, coberta pela sensação de vazio.

Só que esse ano o vazio seria maior. Alem da saudades da vida sem rotina, dos dias mais compridos e ensolarados, da brisa do mar e dos amigos da praia eu me consumia pensando que eu morreria sem ele.  Meu primeiro amor correspondido. Meu amor de verão. Minha mãe passou as férias falando que era pra eu não me envolver muito. Que paixões de verão não subiam a serra e só serviam pra fazer a gente sofrer.  Mas se o preço a pagar por todos os dias felizes era o sofrimento eterno, eu pagaria. Eu sabia que quando acabasse as férias, nosso namoro acabaria também. Eu morava em uma cidade e ele em outra. Eu estava indo para o primeiro ano do ensino médio e ele pra faculdade.  A gente teria outras experiências, outras histórias para viver e nada seria como nosso verão.  Ainda assim, eu queria me apegar a possibilidade de viver aquele amor a distancia e esperar os outros 10 meses do ano passar para reencontra-lo novamente. Nos encontramos no final do dia, como em todos os outros dias do verão, desde que nos conhecemos, na pracinha. Tomamos um sorvete. Ficamos namorando, nos beijando e curtindo cada segundo que a gente podia. Ele quase não falou. Eu queria falar de todos os sonhos que tinha, mas me sentia uma menina boba, acreditando em contos de fadas. Ele me levou até o portão de casa e me deu um último beijo. Mais demorado, mais carinhoso, mais doído. Uma lágrima insistiu eu saltar do meu olho. Filha única, sem pai, perdida na imensidão da minha tristeza e no vazio que aquele beijo já me provocava. Ele a amparou com um dedo carinhoso, sorrindo com um olhar triste. Não podíamos fazer promessas que não cumpriríamos. Um amor de verão. Com data para término, um promessa velada de um talvez no próximo ano e a certeza de que a vida continuaria apesar de tudo.  Eu entrei pelo portão, e fiquei observando ele se afastando. Cabeça baixa, mãos no bolso da bermuda, andar lento. Estava petrificada olhando a distância cada vez maior que seu corpo tomava do meu. Ele se virou, nossos olhos se cruzaram. Um beijo foi jogado ao ar, um sorriso iluminou a noite e eu soube, que nada faria ele deixar de ser o meu primeiro amor.

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