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  • Luísa Aranha

É preciso ir fundo


Deixar sangrar, fazer doer, cuidar da ferida, trocar curativos, dar pontos e, em alguns casos, mais drásticos e tóxicos, até amputar.

A cicatriz demora, volta e meia você não aguenta a agonia, se joga na ansiedade e arranca as casquinhas. E não importa se você tem 8, 18 ou 38. Talvez algumas décadas a frente a gente até aprenda a não enfiar os dedos, mas com o primeiro dos entas, eu, lastimo informar, isso ainda não rola.

E cada vez que você arranca, sabendo que não deveria, sangra de novo. Não como da primeira vez. Um pouco menos. Mas um novo processo de cura se forma. Não adianta, você sabe que não deveria, é mais forte que você, porque de alguma forma ainda se culpa pelo machucado, pela falta de cuidado/atenção/ caráter DO OUTRO.

E os dedos nervosos, os medos absurdos, as neuras que nem são tuas, mais uma vez, com um pouco mais de cuidado, lutam uma batalha, entre a razão dizendo não, e o impulso de “tudo bem, já superei”.

O pranto de dor, a ferida fica exposta, o peso da responsabilidade do auto flagelo, tudo nos ombros. Novos curativos, a cura, o cuidado, o olhar atento.

Ao mínimo sinal de alteração, o insight. Finalmente o controle sobre a ferida. As cascas vão caindo, a pele rosada aparecendo e o medo de que qualquer coisa possa tocar ali. Trocamos o estilo de roupas para proteger as feridas — ou apenas nos esconder—, por um tempo funciona. Você acha que está pronto, que a cicatriz desaparecerá.

E um dia, quando as novas vestimentas são confortáveis, com tantos adereços para disfarçar as verdades, você acorda e sente: latejar, pulsar, queimar. Como uma febre que consome, uma inflamação que avança rapidamente. As roupas apertam, você incha.

Você lembra que ela sempre esteve ali. Aceita. Percebe que não importa o tempo, os anos, as felicidades novas, a cicatriz continua. Ali.

E, nesse dia, no momento que você olha com carinho e entende que, agora, aquela marca é parte da tua história, ela para de incomodar. Se torna apenas uma cicatriz.

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